terça-feira, 22 de novembro de 2011

PLESTRA DE JOSÉ ÁLFIO NA ACADEMIA DE LETRAS E ARTES DO PLANALTO

Tentativas de preservação e uma proposta singular
No Ano de l819 esteve em Santa Luzia (Luziânia), um viajante suíço chamado Saint-Hilaire, que fez um relato descritivo da paisagem local, nos informando que em Santa Luzia, “as casas, em numero de cerca de trezentas, são, na verdade, construídas de pau e barro”, porem de uma província encantadora no tempo do seu esplendor e a mais agradável que visitou. (Paulo Bertran. P.208) No ano de l978, uma comissão composta por membros da Academia de Artes e Letras do Planalto, apresentou ao prefeito Walter Rodrigues, uma relação composta de 104 (cento e quatro) “prédios históricos existentes nesta cidade, cuja preservação se recomenda”, alem do Tamboril e da Fonte Três Bicas. No ano de 2003, o Governador do Estado de Goiás, Marconi Ferreira Perillo Junior, através do Decreto nº 5853, tomba no Patrimônio Histórico e Artístico Estadual em caráter provisório, 29 (vinte e nove) bens imóveis da cidade de Luziânia, destes bens a maioria encontra-se em estagio precário de conservação, alguns abandonados beirando à ruínas. O aprofundamento da questão da paisagem e das leis de proteção foge um pouco do meu foco, porem vejo que a constituição brasileira prevê a salvaguarda do patrimônio histórico, e essa responsabilidade é transferida para o Estado, e o estado transfere para o município, e o municio a transfere para o proprietário do bem histórico, que na sua grande maioria já sofre com a carga alta de impostos e obrigações financeiras sem condições nenhuma de empreender restaurações no imóvel histórico, e assim cumprir o que manda a Constituição. Outro agravante em Luziânia, que afeta a nossa Paisagem Histórica é a falta de um centro de pesquisa histórica. Encontramos pouquíssimos documentos relacionados a história do lugar, estudantes e pesquisadores vão a Academia ou a Casa da Cultura, onde encontramos parte do acervo histórico municipal, representativo de mais de 265 anos de história, e cuja gestão tem sido entregue a cabos eleitorais, sem vínculo algum com a arte e a cultura da cidade. Digo isto com todo respeito e consideração aos funcionários da Prefeitura Municipal que cuidam daquele acervo, que ainda sofre com a falta de recursos para aquisição, manutenção, preservação e restauração, pois bem sabemos que os serviços da cultura são vistos como gasto e nunca como investimento, para um acervo reduzido a poucas peças, alvo de contínuos saques e roubos. Circula no meio intelectual da cidade certo desdém com relação à arte colonial, considerando sua feitura marcada pela “falta de artesãos habilidosos”, o que merece uma análise, pois, foram poucos os que debruçaram em documentos históricos para reconhecer que a imagem de Nossa Senhora com o menino, esculpida em cedro, pintada em policromia, ornada com folhas de ouro e que ainda está em Luziânia, trata-se de valiosa “peça de autoria confirmada a Veiga Valle”. (Heliana Angotti. A singularidade de Obra de Veiga Valle. P.394) A grande maioria ainda não reconheceu a grandeza da arte barroca que ornamenta os altares da Igreja Matriz (refiro-me aos dois das capelas laterais), nem tampouco visualizaram no arco construído em madeira, da velha Igreja do Rosário as lições da simetria, do volume, do arranjo, obtido com o avanço ou recuo no jogo das suas molduras. Não acredito que os portais abaulados que ainda nos apresentam a fachada do imponente casarão da Academia de Letras e Artes do Planalto, pode ter sido construído por artesãos sem habilidade, pois o que mais exigia do artesão, construtor, era a decantada habilidade no corte, no aparelhamento da madeira, no molde prévio, que se fazia necessário à feitura do traçado da linha de curvatura, aplicado na seqüência de portais e janelas que se voltam pra rua como um grandioso espetáculo visual. O barrado recortado da moldura, que circunda o telhado da Casa da Cultura, partiu da criação de uma forma, que se repetiria ao longo do encontro das paredes com o telhado, ali onde este ornamento sobre ás tabuas corridas e inclinadas escondia as linhas superiores do casarão persistindo em se mostrar aos passantes como um espetáculo urbano. As sacadas do Sobrado do Sr Josué da Costa Meireles, demolido na década de setenta, trazia na feitura de suas sacadas, reminiscências do Art nouveau, principalmente nas bolas de bronze ornadas com motivos florais, fixados na sua extremidade. A técnica de coloração do vidro que encaixava em molduras, de janelas quadriculadas em forma de guilhotina, ainda utilizada nas catedrais metropolitanas, ainda não foi vista, aqui, como arte. Medidas devem ser tomadas em caráter de urgência com relação ao destino dos documentos históricos que compõem a Paisagem de Luziânia. Dentre as quais podemos destacar: A salvaguarda do arquivo Gelmires Reis, preservando a integridade e conservação dos seus documentos e registros. A implementação do museu da memória de Luziânia com a criação de um Arquivo Histórico Municipal. O tombamento municipal, estadual e federal da Praça Três Bicas juntamente com o Painel do D.J. De Oliveira. A recuperação das obras que compões o acervo público municipal incluindo a restauração e revitalização do casarão que pertenceu ao D.J. Senhor Presidente. Um primeiro passo foi dado na criação do Museu. Quero aqui anunciar, em primeira mão que através de uma Organização da Sociedade Civil, a três anos em atividade, A Ong-proteger lza iniciou a catalogação e aquisição de um precioso acervo de objetos históricos da antiga Santa Luzia e da grande Luziânia, dentre eles menciono: O cachimbo que pertenceu ao D.J de Oliveira, uma caneta Paker dourada, que pertenceu ao Sr. Benetido Paiva, Uma caneca de cuité, com aros de prata, que pertenceu ao Santa Luziano Hermínio Francisco Ribeiro, Pai do Sr. Vargas Francisco Ribeiro, um punhal de prata da família de Ortóbia Meireles, nossa querida Dona Tuna, e tantos outros objetos da minha coleção particular que contam a história de Luziânia. Pedimos aqui o apoio da Academia e dos cidadãos de Luziânia para alavancarmos este projeto dando maior dimensão a esta iniciativa. Acredito que com esta ação a imagem de Luziânia vinculada na mídia nacional como a cidade mais violenta do entorno de Brasília, poderá se verter na cidade do marmelo, da arte, da cultura e da história.