terça-feira, 22 de novembro de 2011

PALESTRA DE JOSÉ ÁLFIO NA ACADEMIA DE LETRAS E ARTES DO PLANALTO

D. j. de Oliveira e a ligação com a cidade de Luziânia.
Importante notar que D.J de Oliveira pesquisou a fundo a história de Luziânia, principalmente os autores Joseph de Melo Álvares, Gelmires Reis, alem de Paulo Bertram e Adirsom Vasconcelos, para elaborar uma espécie de narrativa através de imagens que fizessem referência a história da cidade. D. J. Oliveira agiu como um profeta, um mago, um artista que coloca a sua arte, ou quiçá sua própria vida, para reflexão do destino de uma paisagem, prenunciando a grande transformação que iria ocorrer no tecido urbano, no campo arquitetural, sócio-econômico e cultural, a partir da instalação de Brasília. Mencionou através de linhas e cores o embate entre duas temporalidades, o antigo e o moderno no contexto histórico da cidade de Luziânia. Mas qual foi à posição do pintor e sua atitude frente à mudança da paisagem humana e geográfica? D.J Oliveira chegou em Luziânia, no ano de 1972, a convite do empresário Neviton Carneiro Lobo, foi morar primeiramente em um velho sobrado de dois pavimentos localizado na rua José de Melo, onde funciona hoje o Centro de Convivência dos Idosos. Vale ressaltar que Brasília já completará 12 anos, e a esposa do pintor e seus três filhos morava em um edifício na capital federal. Nesta época tive a oportunidade de conhecer o renomado mago das cores e com ele aprendi algumas técnicas de pintura e gravura, além de absorver algumas idéias que o alimentavam. Ali, ele pintou várias obras com o tema de Dom Quixote, produziu gravuras ligadas ao tema da Via Sacra, Antônio Conselheiro e a Paisagem de Luziânia. Em 1976, se ligou a um grupo de intelectuais da cidade para criação de um instituto de preservação do acervo patrimonial e artístico da cidade, a Academia de Letras e Artes do Planalto, que tinha como função zelar pela preservação do patrimônio histórico e artístico da região, ameaçado de extinção, frente a expansão dos serviços da modernidade advindos da instalação da moderna capital brasileira nas proximidades de Luziânia. Essa idéia teve grande adesão da comunidade política e intelectual da cidade e o pintor ocupou a cadeira de nº 13 nesta academia, até o dia da sua morte ocorrida no dia 23 de setembro de 2005. A mudança para outro casarão no bairro do Rosário reforçou ainda mais sua integração com a herança cultural de Luziânia, pois comprou o casarão no estilo colonial, do mesmo período do velho sobrado onde residia. A ligação do pintor com este casarão é marcante, pois ali foi escolhido para ser seu ateliê preferido, considerando que tinha na época um ateliê em Goiânia, para contatos e ponte de encontro com marchand e intelectuais daquele lugar. Sem apoio do poder público local, restaurou com recursos próprios, toda estrutura da casa, retirando telha por telha e reparando ou substituindo parte do madeiramento da mesma com madeiras oriundas do sítio que possuía nas proximidades da fazenda Catalão município de Luziânia. Na restauração que empreendeu no velho casarão, ele não colocou forro, pois gostava do clima, do arejamento possibilitado pelos enormes portais e janelas e gostava de observar a pátina das telhas quando a chuva caía por sobre elas. Sempre nos dizia que ali era o seu lugar, seu verdadeiro ateliê. Alimentava o costume de se sentar na calçada defronte ao velho casarão, para que ali, de posse do seu inseparável cigarro de palha, pudesse observar a rua, ver a procissão dos fiéis subindo a estonteante ladeira do rosário, conversar com as pessoas que o visitavam principalmente amigos, personalidades comuns do dia-a-dia e os pintores da cidade. Sempre foi totalmente contra a colocação de asfalto na Rua do rosário, pois afirmava que o trabalho de compactação realizado por pesadas máquinas provocaria uma trepidação muito forte no terreno e as paredes dos casarões não resistiriam, provocariam o rompimento das estruturas e o deslizamento das telhas, danificando as construções históricas. Certa vez nos disse numa entrevista. “Se tirarem os seus paralelepípedos será um desastre”. DJ. Oliveira foi um dos acadêmicos que juntamente com Gelmires Reis e Benedito de Araújo Melo, tiveram a coragem de manifestar publicamente a preocupação com o destino do patrimônio histórico e artístico de Luziânia e sua paisagem colonial. Em 15 de Dezembro de 1974, numa matéria publicada no Jornal cinco de Março, eles fizeram um apelo ao governo do estado no sentido de que fossem tomadas providências para impedir a depredação do que resta da paisagem colonial na cidade, e citaram como peças ameaçadas, cinco sobrados e a rua do rosário. Infelizmente só restam três sobrados sendo que um deles em condições precárias de instalações e conservação e a Rua do Rosário que permanece esquecida, fora dos projetos de restauração e revitalização, dos órgãos públicos responsáveis pela sua conservação histórica. Assim nos alertou o renomado pintor “Esta cidade tem muitos traços do colonial brasileiro que devem ser preservados, especialmente os sobrados e a rua do rosário. A sua proximidade com Brasília é um imperativo para que essas relíquias não sejam violentadas, para que as suas condições turísticas possam ser aproveitadas integralmente.” D.J de Oliveira sempre gostou de Luziânia pelas suas características, pelo seu clima, pela maneira de ser do seu povo, a identidade cultural do lugar, visualizava a cidade como um verdadeiro recanto. O certo é que O D.J de Oliveira manteve certa paixão pela cidade e essa ligação foi percebida pelo ilustre professor da Universidade de Brasília Dr. Flávio Koth, que, na apresentação de um catálogo em agosto de 1977, ali escreveu, “após percorrer o mundo, vive em Luziânia, como se tivesse escolhido um exílio voluntário das grandes metrópoles brasileiras, como se preferisse estender no ar, solitário, um signo que proferisse um mudo protesto contra as condições de vida nelas existentes.” Considerado um dos defensores e divulgadores, do patrimônio artístico e colonial de Luziânia, ao lado de Gelmires Reis, Benedito de Araújo Melo, Dilermando Meireles e outros, D. J Oliveira deixou um riquíssimo legado artístico e cultural para Luziânia, o painel três bicas, o pedestal do cristo redentor que se encontra totalmente desfigurado, um painel no ginásio de esporte que gera muita controvérsia pelo caráter da suas imagens, algumas obras de arte espalhadas em edifícios públicos e na mão de restritos colecionadores, além da possibilidade de uma reflexão sobre o destino da paisagem colonial da Luziânia, vista através do seu casarão que se tornou símbolo do descaso e da destruição dos registros históricos, pois continua abandonado, caindo aos pedaços, na movimentada Rua do Rosário.