quarta-feira, 23 de junho de 2010
segunda-feira, 21 de junho de 2010
OBJETOS HISTÓRICOS
ACERVO HISTÓRICO DA CASA DA CULTURA DE LUZIÂNIA RECEBE PROTEÇÃO LEGAL

Estribos de bronze, objeto de montaria animal, provavelmente do seculo XVIII, dos antigos moradores de Santa Luzia. Acervo: Casa da Cultura (Foto: José Álfio)
A Câmara Municipal aprovou e o Prefeito de Luziânia Dr. Célio da Silveira sancionou e promulgou a Lei nº 3.363 de 25 de maio de 2010, que dispõem sobre a proibição de empréstimos das peças históricas do acervo municipal, determinando no seu artigo primeiro: “Fica terminantemente proibido o empréstimo das peças históricas do acervo municipal de Luziânia sob a guarda e proteção da Casa da Cultura.” Finalmente surgiu uma determinação de valorização e reconhecimento do valor histórico dos objetos antigos, testemunhos das antigas civilizações, que insistem em permanecerem acessíveis ao público que visitam a Casa da Cultura para conhecer um pouco do que resta da história de Luziânia. Pelo que sabemos os objetos e todo o acervo não dispõem de um serviço especializado de restauração, as peças que por ventura são extraviadas ou danificadas, tornam-se cada vez mais difíceis à reposição, considerando sua raridade e singularidade na paisagem, alem de não servirem-se de um sistema de monitoramento eletrônico para vigilância das mesmas, e o que é mais preocupante, do ponto de vista da preservação, é que não dispõe ainda de programas de aquisição de peças históricas para enriquecimento do acervo municipal, pois a maioria das peças do acervo da casa da cultura foram adquiridas através da doação realizada pelos moradores de Luziãnia, daí serem consideradas patrimônio coletivo, sob a guarda do poder público municipal. A Casa da Cultura possui guarda noturno e diurno, porém não se conseguiram ainda evitar roubos de peças do acervo. Assim a Casa da Cultura cumpre o heróico papel de se tornar no pretensioso e tão sonhado Museu Municipal de Luziânia. Atualmente é considerada por muitos como repositórios de coisas velhas, depósitos de objetos antiquados, fora do uso, fotografias amareladas pelo tempo. Os objetos permanecem sob a ameaça do desaparecimento, da falta de restauração e desgaste por sucessivas ações de empréstimos em atendimento aos caprichos de uma sociedade que desdenha o velho, o antigo, em detrimento do novo. Não descobriram, ainda, o verdadeiro valor histórico e sentimental que as peças da Casa da Cultura detêm em meio à parafernália dos instrumentos que surgem a cada dia com o avanço científico e tecnológico dos meios de produção. Os objetos do acervo municipal, sob a guarda e proteção da Casa da Cultura, representam uma referência ao tempo histórico, aos estágios de transformações que ocorreram e ainda ocorrem tanto na paisagem como na economia, na sociedade e na cultura, dos grupos sociais que edificaram a antiga Santa Luzia, hoje Luziãnia. Conhecer os objetos da casa da cultura é empreender uma leitura do tempo, e compreender como os antigos viviam e suas relações com o espaço, com a natureza e com o universo. A cidade passa por um acelerado processo de modernização que coloca em cheque a civilização histórica e toda sua tradição, dificultando os mecanismos de preservação, compreendendo aqui as tradições, os costumes e todo o patrimônio histórico incluindo os objetos que ainda são preservados na Casa da Cultura. O projeto de lei de autoria do vereador Murilo Roriz, ganhou a simpatia do legislativo municipal, dos estudantes e professores de história, dos militantes das Ongs de preservação, dos artistas e comunidade de protetores e defensores do patrimônio histórico de Luziânia, e se constitui num marco importante para o resgate e preservação da história da grande Luziânia.
(Por José Álfio).

Estribos de bronze, objeto de montaria animal, provavelmente do seculo XVIII, dos antigos moradores de Santa Luzia. Acervo: Casa da Cultura (Foto: José Álfio)
A Câmara Municipal aprovou e o Prefeito de Luziânia Dr. Célio da Silveira sancionou e promulgou a Lei nº 3.363 de 25 de maio de 2010, que dispõem sobre a proibição de empréstimos das peças históricas do acervo municipal, determinando no seu artigo primeiro: “Fica terminantemente proibido o empréstimo das peças históricas do acervo municipal de Luziânia sob a guarda e proteção da Casa da Cultura.” Finalmente surgiu uma determinação de valorização e reconhecimento do valor histórico dos objetos antigos, testemunhos das antigas civilizações, que insistem em permanecerem acessíveis ao público que visitam a Casa da Cultura para conhecer um pouco do que resta da história de Luziânia. Pelo que sabemos os objetos e todo o acervo não dispõem de um serviço especializado de restauração, as peças que por ventura são extraviadas ou danificadas, tornam-se cada vez mais difíceis à reposição, considerando sua raridade e singularidade na paisagem, alem de não servirem-se de um sistema de monitoramento eletrônico para vigilância das mesmas, e o que é mais preocupante, do ponto de vista da preservação, é que não dispõe ainda de programas de aquisição de peças históricas para enriquecimento do acervo municipal, pois a maioria das peças do acervo da casa da cultura foram adquiridas através da doação realizada pelos moradores de Luziãnia, daí serem consideradas patrimônio coletivo, sob a guarda do poder público municipal. A Casa da Cultura possui guarda noturno e diurno, porém não se conseguiram ainda evitar roubos de peças do acervo. Assim a Casa da Cultura cumpre o heróico papel de se tornar no pretensioso e tão sonhado Museu Municipal de Luziânia. Atualmente é considerada por muitos como repositórios de coisas velhas, depósitos de objetos antiquados, fora do uso, fotografias amareladas pelo tempo. Os objetos permanecem sob a ameaça do desaparecimento, da falta de restauração e desgaste por sucessivas ações de empréstimos em atendimento aos caprichos de uma sociedade que desdenha o velho, o antigo, em detrimento do novo. Não descobriram, ainda, o verdadeiro valor histórico e sentimental que as peças da Casa da Cultura detêm em meio à parafernália dos instrumentos que surgem a cada dia com o avanço científico e tecnológico dos meios de produção. Os objetos do acervo municipal, sob a guarda e proteção da Casa da Cultura, representam uma referência ao tempo histórico, aos estágios de transformações que ocorreram e ainda ocorrem tanto na paisagem como na economia, na sociedade e na cultura, dos grupos sociais que edificaram a antiga Santa Luzia, hoje Luziãnia. Conhecer os objetos da casa da cultura é empreender uma leitura do tempo, e compreender como os antigos viviam e suas relações com o espaço, com a natureza e com o universo. A cidade passa por um acelerado processo de modernização que coloca em cheque a civilização histórica e toda sua tradição, dificultando os mecanismos de preservação, compreendendo aqui as tradições, os costumes e todo o patrimônio histórico incluindo os objetos que ainda são preservados na Casa da Cultura. O projeto de lei de autoria do vereador Murilo Roriz, ganhou a simpatia do legislativo municipal, dos estudantes e professores de história, dos militantes das Ongs de preservação, dos artistas e comunidade de protetores e defensores do patrimônio histórico de Luziânia, e se constitui num marco importante para o resgate e preservação da história da grande Luziânia.
(Por José Álfio).
segunda-feira, 31 de maio de 2010
CURIOSIDADES ONG
LINGUAJAR ANTIGO DE LUZIÂNIA
CURRIÃO = CINTO, CINTURÃO
CAPANGA = BOLSA
GIBEIRA = BOLSO
RADIÓLA = APARELHO DE SOM
PELÊGO = COBERTOR
GUOIÁCA = CARTÊIRA
BINGA = ISQUÊIRO
TRAMÉLA = TRINCO
CANASTRA = BAÚ
TRÁIA = KIT DE PESCA
CALÇA PEGA FRANGO = CALÇA CURTA
JAPÔNA = BLUSA DE FRIO
PRECÁTA = CHINELO
CHINÉLO = SANDÁLIA
PÓ DE ARROZ = MAQUIAGEM
TAMANCO = SAPATO
JANELA = VITRÔR
VITRÔR = VENEZIANA
PAÇÓCA = FARÓFA DE CARNE
PATACÃO = MOÉDA
OS COBRE = DINHEIRO
DENTIFRISSO = CREME DENTAL
BANHA = ÓLE DE SOJA
QUEIMAR = BRONZEAR
(Por: José Álfio. Ajudem-nos a ampliar esta relação. se você conhece palavras antigas que receberam novas significações, envie para Ong protegerlza, nós agradecemos sua participação. wwwongprotegrlza.blogspot.com)
CURRIÃO = CINTO, CINTURÃO
CAPANGA = BOLSA
GIBEIRA = BOLSO
RADIÓLA = APARELHO DE SOM
PELÊGO = COBERTOR
GUOIÁCA = CARTÊIRA
BINGA = ISQUÊIRO
TRAMÉLA = TRINCO
CANASTRA = BAÚ
TRÁIA = KIT DE PESCA
CALÇA PEGA FRANGO = CALÇA CURTA
JAPÔNA = BLUSA DE FRIO
PRECÁTA = CHINELO
CHINÉLO = SANDÁLIA
PÓ DE ARROZ = MAQUIAGEM
TAMANCO = SAPATO
JANELA = VITRÔR
VITRÔR = VENEZIANA
PAÇÓCA = FARÓFA DE CARNE
PATACÃO = MOÉDA
OS COBRE = DINHEIRO
DENTIFRISSO = CREME DENTAL
BANHA = ÓLE DE SOJA
QUEIMAR = BRONZEAR
(Por: José Álfio. Ajudem-nos a ampliar esta relação. se você conhece palavras antigas que receberam novas significações, envie para Ong protegerlza, nós agradecemos sua participação. wwwongprotegrlza.blogspot.com)
quarta-feira, 26 de maio de 2010
ARQUIVO GELMIRES REIS
SOBRADO ASSOMBRADO
Por Gelmires Reis (In-memoriam)

Tinha razão daquele sobrado vetusto, antigo, caindo aos pedaços, ser mal assombrado, centro de reunião de fantasmas, almas penadas, duendes, sacís-pererês, à meia-noite, para a orgia inquietante do além-túmulo. O seu construtor e proprietário foi senhor de grandes terras e enorme escravatura. Edificado no centro da fazenda Anhangatuba, a margem do ribeirão Solitário, irradiava poderio até quatro léguas, nas redondezas. Suas paredes ouviram muitas ordens de assassinatos, espancamentos e castigos terríveis. Havia no quintal moendas de chibatas, para martírio de negros rebeldes, tocadas a roda d’água. Um pelourinho imponente e impiedoso foi testemunha de muita chaga viva, que recebia, como curativo, salmoura forte com pimenta, para aumento das dores. Escravos eram dependurados nas arvores, pelos braços, como castigo dos furtos praticados, ficando naquela posição dias inteiros, sem alimentação e sem água. Ao lado de tanta malvadez vinha o desperdício da família. As moças quando queriam beber garapa, punham cuias cheias de açúcar, na bica do monjolo e iam aparar a água doce, adiante. Tantas raivas, ódios, angustias, lágrimas, sofrimentos e pragas concorreram para a completa decadência da fazenda e desgraça da família. Os chefões morreram desatadamente. Os filhos se retiraram dali, horrorizados, empobrecidos, indo procurar abrigos em outros lugares.
Desde então, o sobrado abandonado ficou sendo o paraíso dos morcegos, ratos, cobras, lagartixas, marimbondos, escorpiões, aranhas, etc. As poucas pessoas mais animosas, que, em viajem, tinham coragem de pernoitar, ali, fugiam, espavoridas, altas horas, gritando e pedindo socorros. Houve casos , até de dois rapazes, que enlouqueceram. Durante o dia, quando qualquer campeiro ia procurar alguma rês arredia, que costumava pastar naquelas imediações, ao aproximar-se do sobrado em ruínas, persignava-se, rezava o “Creio em Deus Padre” e pedia a Nossa Senhora para protege-lo e ampara-lo. O terror dominava em toda sua magnitude, no espírito da vizinhança de légua, pois ninguém tinha coragem de morar perto. Si algum viajor dizia que ia pousar no sobrado, recebia conselhos ponderados e cautelosos, para não fazer tamanha loucura. Havia citações de fatos sucedidos, que arrepiavam os cabelos, tão horrorosos eram.
Terêncio Monteiro, baiano destorcido, entretanto, não quis ouvir tais conselhos. Não tinha medo de coisas do outro mundo. Era devoto de São Bom Jesus da Lapa. Além disso, a sua faca era afiada e a sua pontaria certeira. Pousaria, ali, sem receio. O sol acabava de se despi do mundo, quando desarreou o cargueiro e o cavalo de sela. Poz a cangalha, bruacas, arreios e demais quiçaça de viagem em uma travessa de madeira, no compartimento superior, para evitar as visitas incomodativas dos animais à noite. Depois de tudo em ordem, ajeitou a cama, no assoalho, comeu paçoca, rapadura e queijo, bebendo água por cima.
Dormiu a sono solto, da primeira arrancada. Acordou com barulhos, no andar inferior. Conversas em voz baixa, cochichos, assovios, passos cuidados. E agora, pensou o hóspede, que a porca torce o rabo. Não devia ter vindo. Vim. Só me cabe agora agüentar o baralhado. Para começar a luta, resolveu atirar a cangalha, pela escada abaixo, a fim de espantar o que ali estava. Pegou a mesma e, num esforço supremo, arremessou-a. A retranca apanhou sua cabeça e la se foram os dois, aos trambolhões, até que pararam no compartimento térreo. Profundo gemido e deliciosa vertigem foram o resultado da queda.
Quando Terêncio recobrou os sentidos, o dia estava claro. O ar fresco da madrugada lhe foi benéfico. Estava com o rosto em uma poça de sangue. Sentiu o nariz dolorido. Retirou do bolso um espelhinho e olhou. O pobre órgão, encarregado de cheirar as coisas, estava amassado, dolorosamente vermelho, incapaz de agüentar o contato de qualquer objeto. Felizmente, os olhos não sofreram nada, tanto que avistou, sobre o caixote debruçado, servindo de mesa, notas de diversas importâncias, legítimas, dos Bancos, muitas moedas de ouro e de prata, além de objetos outros, de reconhecido valor. Não se lembrou mais de seu nariz. Levantou-se passou a mão naquilo tudo, ligeiro, pegou os animais, arreou-os e raspou dali, daquele sobrado, que era covil de ladrões. Roubavam na cidade e iam fazer a partilha, naquela tapera, que, por isso, ficou assombrada e aterrorizadora. ( Da Casa da Cultura de Luziânia, Memorial Gelmires Reis. Livro: Paginas da Roça, de Gelmires Reis, Editora: Gráficas Luzianas, Luziânia Goiás, 1945, pág. 39 – 41. Transcrito por: José Álfio)
Por Gelmires Reis (In-memoriam)

Tinha razão daquele sobrado vetusto, antigo, caindo aos pedaços, ser mal assombrado, centro de reunião de fantasmas, almas penadas, duendes, sacís-pererês, à meia-noite, para a orgia inquietante do além-túmulo. O seu construtor e proprietário foi senhor de grandes terras e enorme escravatura. Edificado no centro da fazenda Anhangatuba, a margem do ribeirão Solitário, irradiava poderio até quatro léguas, nas redondezas. Suas paredes ouviram muitas ordens de assassinatos, espancamentos e castigos terríveis. Havia no quintal moendas de chibatas, para martírio de negros rebeldes, tocadas a roda d’água. Um pelourinho imponente e impiedoso foi testemunha de muita chaga viva, que recebia, como curativo, salmoura forte com pimenta, para aumento das dores. Escravos eram dependurados nas arvores, pelos braços, como castigo dos furtos praticados, ficando naquela posição dias inteiros, sem alimentação e sem água. Ao lado de tanta malvadez vinha o desperdício da família. As moças quando queriam beber garapa, punham cuias cheias de açúcar, na bica do monjolo e iam aparar a água doce, adiante. Tantas raivas, ódios, angustias, lágrimas, sofrimentos e pragas concorreram para a completa decadência da fazenda e desgraça da família. Os chefões morreram desatadamente. Os filhos se retiraram dali, horrorizados, empobrecidos, indo procurar abrigos em outros lugares.
Desde então, o sobrado abandonado ficou sendo o paraíso dos morcegos, ratos, cobras, lagartixas, marimbondos, escorpiões, aranhas, etc. As poucas pessoas mais animosas, que, em viajem, tinham coragem de pernoitar, ali, fugiam, espavoridas, altas horas, gritando e pedindo socorros. Houve casos , até de dois rapazes, que enlouqueceram. Durante o dia, quando qualquer campeiro ia procurar alguma rês arredia, que costumava pastar naquelas imediações, ao aproximar-se do sobrado em ruínas, persignava-se, rezava o “Creio em Deus Padre” e pedia a Nossa Senhora para protege-lo e ampara-lo. O terror dominava em toda sua magnitude, no espírito da vizinhança de légua, pois ninguém tinha coragem de morar perto. Si algum viajor dizia que ia pousar no sobrado, recebia conselhos ponderados e cautelosos, para não fazer tamanha loucura. Havia citações de fatos sucedidos, que arrepiavam os cabelos, tão horrorosos eram.
Terêncio Monteiro, baiano destorcido, entretanto, não quis ouvir tais conselhos. Não tinha medo de coisas do outro mundo. Era devoto de São Bom Jesus da Lapa. Além disso, a sua faca era afiada e a sua pontaria certeira. Pousaria, ali, sem receio. O sol acabava de se despi do mundo, quando desarreou o cargueiro e o cavalo de sela. Poz a cangalha, bruacas, arreios e demais quiçaça de viagem em uma travessa de madeira, no compartimento superior, para evitar as visitas incomodativas dos animais à noite. Depois de tudo em ordem, ajeitou a cama, no assoalho, comeu paçoca, rapadura e queijo, bebendo água por cima.
Dormiu a sono solto, da primeira arrancada. Acordou com barulhos, no andar inferior. Conversas em voz baixa, cochichos, assovios, passos cuidados. E agora, pensou o hóspede, que a porca torce o rabo. Não devia ter vindo. Vim. Só me cabe agora agüentar o baralhado. Para começar a luta, resolveu atirar a cangalha, pela escada abaixo, a fim de espantar o que ali estava. Pegou a mesma e, num esforço supremo, arremessou-a. A retranca apanhou sua cabeça e la se foram os dois, aos trambolhões, até que pararam no compartimento térreo. Profundo gemido e deliciosa vertigem foram o resultado da queda.
Quando Terêncio recobrou os sentidos, o dia estava claro. O ar fresco da madrugada lhe foi benéfico. Estava com o rosto em uma poça de sangue. Sentiu o nariz dolorido. Retirou do bolso um espelhinho e olhou. O pobre órgão, encarregado de cheirar as coisas, estava amassado, dolorosamente vermelho, incapaz de agüentar o contato de qualquer objeto. Felizmente, os olhos não sofreram nada, tanto que avistou, sobre o caixote debruçado, servindo de mesa, notas de diversas importâncias, legítimas, dos Bancos, muitas moedas de ouro e de prata, além de objetos outros, de reconhecido valor. Não se lembrou mais de seu nariz. Levantou-se passou a mão naquilo tudo, ligeiro, pegou os animais, arreou-os e raspou dali, daquele sobrado, que era covil de ladrões. Roubavam na cidade e iam fazer a partilha, naquela tapera, que, por isso, ficou assombrada e aterrorizadora. ( Da Casa da Cultura de Luziânia, Memorial Gelmires Reis. Livro: Paginas da Roça, de Gelmires Reis, Editora: Gráficas Luzianas, Luziânia Goiás, 1945, pág. 39 – 41. Transcrito por: José Álfio)
segunda-feira, 3 de maio de 2010
terça-feira, 27 de abril de 2010
NO TEMPO DOS ESCRAVOS
O REGO SAIA VELHA

(A imagem apresenta na parte inferior, pequenos arbustos, vegetação tipica do cerrado, e no alto, o morro do Falcão, que fica atraz do setor Jofre Parada, em Luziânia Go. O morro apresenta um corte horizontal, uma espécie de cicatriz, marcas do trabalho escravo, que originou o rego saia velha com mais de 48 Km de extensão.Foto tirada das mediações do Clube AABB,na região que se abre para um grande vale, onde o acesso se da atraves de uma pequena trilha. Foto: Alexandre Moska 2010)
(Transcrito por: José Álfio e Rosana Roriz de Lima Reis.)
No dia 11 de abril de 1768, fundou-se no arraial uma sociedade entre o capitão João Pereira Guimarães, Manoel Pereira Guimarães, Manoel Ribeiro da Silva e Ventura Álvares Pedrosa, homens ricos e possuidores de grande escravatura; para canalizar a água do ribeirão Saia Velha e explorar as minas do Cruzeiro, próximas à povoação.
Tendo o major José Pereira Lisboa declarado em palestra que a água do Saia Velha poderia vir às minas do Cruzeiro não em rego ou canal, mas em cabaças e que duvidava do cometimento do capitão João Pereira Guimarães e seus sócios, os intrigantes trataram logo de levar esta conversa ao conhecimento de Guimarães e este, recebendo o pião na unha, tomou nota e esperou.
A sociedade atacou com força e tenacidade os serviços do gigantesco rego, os quais sendo começados em abril de 1768 continuaram por todo ano de 1769 e, a onze de setembro de 1760, quando menos se esperava, foi aberto o dique que tinha sido feito nas Terras Altas, e água jorrou barulhenta, pela rua do rosário abaixo, conduzindo um turbilhão de cabaças, que produziram um ruído original, acompanhado por uma canção esquisita e insultuosa, cantada por mais de 100 escravos que, com cacetes quebravam as cabaças. Chegando o Major José Pereira Lisboa a janela de seu sobrado, sito a rua do rosário, viu aquele espetáculo tão fora do comum e ouviu que a canção lhe dizia respeito e era muitíssimo ofensiva a seus brios. Sem perda de tempo, saltou a rua e, com uma arma de fogo, procurava repelir a ofensa que lhe era feita. Nesse momento apareceu o Juiz ordinário José Rodrigues costa que, em vez de acalmar os ânimos, tomou o partido do genro e parentes de Guimarães que eram os autores do insulto, pois o próprio Guimarães dele não fez parte, porque estava doente, de cama, em sua residência, no Engenho da Palma. Em seguida, chegou da chácara de Lisboa, que ficava de vista, um grande contingente de escravos, feitores e amigos, chefiados por seu filho Lourenço Lisboa e o conflito assumiu proporções assustadoras. Indignado com a parcialidade do Juiz, Lisboa atirou ao lado a arma de fogo e, sacando do espadim, arrancou-lhe o chinó, deixando-lhe a calva à mostra. Intimado pelo Juiz para se entregar a prisão, Lisboa a ela não se opôs, porém o povo, vociferando de ódio, procurou impedi-la, dando viva a Lisboa e morras ao Juiz. A muito custo, Lisboa, que era homem ilustrado, pacato e respeitador das leis, convenceu os seus amigos que para mais facilmente provar a sua inocência convinha não haver reação; desceu, então, para a casa que servia de prisão, acompanhado por mais de 1000 pessoas. Nada mais burlesco e nada mais engraçado do que aquele juiz sem peruca e sem chapéu, todo molhado e cheio de lama, a frente dessa onda revolucionária, que tão positivamente estigmatizava o seu baixo procedimento e que de um momento para o outro podia linchá-lo. O capitão João Pereira Guimarães, apesar de doente apareceu a noite no arraial e solicitou a soltura de Lisboa, perante quem se justificou; porem o juiz a nada quis atender chegando mesmo a indispor-se com o Capitão Guimarães. A 15 de outubro de 1771, seguiu escoltado com as devidas honras, para Vila Boa, o major José pereira Lisboa. Nesse dia, antes de amanhecer, a praça unida à prisão em que estava o ilustre criminoso, regurgitava de povo para obstar a sua partida; mas Lisboa nisso não consentiu. A 03 de dezembro de 1773, voltou Lisboa de Goiás, sendo recebido com as mais ruidosas manifestações de alegrias por parte do povo, indo ao seu encontro mais de duas mil pessoas. Apeou-se na Matriz, onde o esperavam o vigário, e todo o clero e as irmandades de onde assistiu ao te deum, em ação de graça pelo seu livramento. – é esta pequena história do célebre rego de Saia Velha, que ainda hoje é admirado e que tem sido ultimamente objeto de estudos, para o futuro abastecimento de água desta cidade. O incidente havido com o major Lisboa tirou aos empresário dessa importante obra o prazer de gozá-la e conservá-la, tanto que a água correu nas minas do cruzeiro “hoje Cazil” por muito pouco tempo, sendo a conservação do rego logo abandonado. Esse serviço ali esta feito com seu enormes aterros e seus cortes admiráveis; falta agora que os habitantes de Santa Luzia se congreguem e façam no rego os necessários reparos, para que tenhamos um farto abastecimento da excelente água do Saia Velha. – Quere é poder: A realização desse importante melhoramento não é tão custosa como a principio pode parecer; e com isto a nossa terra lucraria a imensamente. A água, com um percurso de cerca de 04 légua nos chegaria suficientemente oxigenada e, além disso, poderia melhorar muitíssimo os campos por onde tem de passar; pois, é sabido que todo o límpido ribeirão pode ser canalizado para esta cidade, pelo extenso e afamado rego. (Do Memorial Gelmires Reis, Casa da Cultura de Luziânia. Livro: Almanach de Santa Luzia; Organizado por: Evangelino Meireles e Gelmires Reis, 1920, Tipografia de O Plnalto. Santa Luzia – Go. Pág. 16 a 20).

(A imagem apresenta na parte inferior, pequenos arbustos, vegetação tipica do cerrado, e no alto, o morro do Falcão, que fica atraz do setor Jofre Parada, em Luziânia Go. O morro apresenta um corte horizontal, uma espécie de cicatriz, marcas do trabalho escravo, que originou o rego saia velha com mais de 48 Km de extensão.Foto tirada das mediações do Clube AABB,na região que se abre para um grande vale, onde o acesso se da atraves de uma pequena trilha. Foto: Alexandre Moska 2010)
(Transcrito por: José Álfio e Rosana Roriz de Lima Reis.)
No dia 11 de abril de 1768, fundou-se no arraial uma sociedade entre o capitão João Pereira Guimarães, Manoel Pereira Guimarães, Manoel Ribeiro da Silva e Ventura Álvares Pedrosa, homens ricos e possuidores de grande escravatura; para canalizar a água do ribeirão Saia Velha e explorar as minas do Cruzeiro, próximas à povoação.
Tendo o major José Pereira Lisboa declarado em palestra que a água do Saia Velha poderia vir às minas do Cruzeiro não em rego ou canal, mas em cabaças e que duvidava do cometimento do capitão João Pereira Guimarães e seus sócios, os intrigantes trataram logo de levar esta conversa ao conhecimento de Guimarães e este, recebendo o pião na unha, tomou nota e esperou.
A sociedade atacou com força e tenacidade os serviços do gigantesco rego, os quais sendo começados em abril de 1768 continuaram por todo ano de 1769 e, a onze de setembro de 1760, quando menos se esperava, foi aberto o dique que tinha sido feito nas Terras Altas, e água jorrou barulhenta, pela rua do rosário abaixo, conduzindo um turbilhão de cabaças, que produziram um ruído original, acompanhado por uma canção esquisita e insultuosa, cantada por mais de 100 escravos que, com cacetes quebravam as cabaças. Chegando o Major José Pereira Lisboa a janela de seu sobrado, sito a rua do rosário, viu aquele espetáculo tão fora do comum e ouviu que a canção lhe dizia respeito e era muitíssimo ofensiva a seus brios. Sem perda de tempo, saltou a rua e, com uma arma de fogo, procurava repelir a ofensa que lhe era feita. Nesse momento apareceu o Juiz ordinário José Rodrigues costa que, em vez de acalmar os ânimos, tomou o partido do genro e parentes de Guimarães que eram os autores do insulto, pois o próprio Guimarães dele não fez parte, porque estava doente, de cama, em sua residência, no Engenho da Palma. Em seguida, chegou da chácara de Lisboa, que ficava de vista, um grande contingente de escravos, feitores e amigos, chefiados por seu filho Lourenço Lisboa e o conflito assumiu proporções assustadoras. Indignado com a parcialidade do Juiz, Lisboa atirou ao lado a arma de fogo e, sacando do espadim, arrancou-lhe o chinó, deixando-lhe a calva à mostra. Intimado pelo Juiz para se entregar a prisão, Lisboa a ela não se opôs, porém o povo, vociferando de ódio, procurou impedi-la, dando viva a Lisboa e morras ao Juiz. A muito custo, Lisboa, que era homem ilustrado, pacato e respeitador das leis, convenceu os seus amigos que para mais facilmente provar a sua inocência convinha não haver reação; desceu, então, para a casa que servia de prisão, acompanhado por mais de 1000 pessoas. Nada mais burlesco e nada mais engraçado do que aquele juiz sem peruca e sem chapéu, todo molhado e cheio de lama, a frente dessa onda revolucionária, que tão positivamente estigmatizava o seu baixo procedimento e que de um momento para o outro podia linchá-lo. O capitão João Pereira Guimarães, apesar de doente apareceu a noite no arraial e solicitou a soltura de Lisboa, perante quem se justificou; porem o juiz a nada quis atender chegando mesmo a indispor-se com o Capitão Guimarães. A 15 de outubro de 1771, seguiu escoltado com as devidas honras, para Vila Boa, o major José pereira Lisboa. Nesse dia, antes de amanhecer, a praça unida à prisão em que estava o ilustre criminoso, regurgitava de povo para obstar a sua partida; mas Lisboa nisso não consentiu. A 03 de dezembro de 1773, voltou Lisboa de Goiás, sendo recebido com as mais ruidosas manifestações de alegrias por parte do povo, indo ao seu encontro mais de duas mil pessoas. Apeou-se na Matriz, onde o esperavam o vigário, e todo o clero e as irmandades de onde assistiu ao te deum, em ação de graça pelo seu livramento. – é esta pequena história do célebre rego de Saia Velha, que ainda hoje é admirado e que tem sido ultimamente objeto de estudos, para o futuro abastecimento de água desta cidade. O incidente havido com o major Lisboa tirou aos empresário dessa importante obra o prazer de gozá-la e conservá-la, tanto que a água correu nas minas do cruzeiro “hoje Cazil” por muito pouco tempo, sendo a conservação do rego logo abandonado. Esse serviço ali esta feito com seu enormes aterros e seus cortes admiráveis; falta agora que os habitantes de Santa Luzia se congreguem e façam no rego os necessários reparos, para que tenhamos um farto abastecimento da excelente água do Saia Velha. – Quere é poder: A realização desse importante melhoramento não é tão custosa como a principio pode parecer; e com isto a nossa terra lucraria a imensamente. A água, com um percurso de cerca de 04 légua nos chegaria suficientemente oxigenada e, além disso, poderia melhorar muitíssimo os campos por onde tem de passar; pois, é sabido que todo o límpido ribeirão pode ser canalizado para esta cidade, pelo extenso e afamado rego. (Do Memorial Gelmires Reis, Casa da Cultura de Luziânia. Livro: Almanach de Santa Luzia; Organizado por: Evangelino Meireles e Gelmires Reis, 1920, Tipografia de O Plnalto. Santa Luzia – Go. Pág. 16 a 20).
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